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O caminho percorrido

Sábado, 20.08.11

 

 

Volto ao início de tudo

olho em volta demoradamente

coisas que registei no olhar

aquela claridade, sensações


Retomo o percurso

foi aqui que me desviei

mas não vi outro caminho,

só aquele, o desvio

 

Volto atrás para confirmar

é mesmo aqui o desvio

terei mesmo de voltar a percorrê-lo

esses encontros e desencontros

esses equívocos todos

 

Sento-me e recuso-me a continuar

teimosamente sentada aguardo

até o silêncio ocupar tudo

até perceber tudo

 

o caminho era mesmo aquele

estava tudo certo

até os encontros e os desencontros

os equívocos também

 


 

 

("Balanços Vitais", 2011)

 


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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:05

Empatia e compaixão, a base da autonomia

Domingo, 14.08.11

 

Arno Gruen, psicanalista que tem estudado os fenómenos de violência na sociedade actual, cita n’ A Traição do Eu Ortega e Gasset, que só acreditava em náufragos, para melhor nos esclarecer que só o indivíduo capaz de sentir a dor, a sua e a do outro, e sentir o desamparo, é capaz de empatia e compaixão, viver afectos genuínos, respeitar-se a si e aos outros.

Agora analisemos a questão nesta perspectiva: estão a ver um indivíduo com estas características adaptar-se bem a normas e a práticas organizacionais que se regem pela lógica do poder, alheias às pessoas, à sua vida, às suas necessidades, e quantas vezes, contra as suas vidas e necessidades vitais? Quantos episódios dramáticos já não ouvimos sobre indivíduos que, no limite, preferiram morrer a colaborar na destruição de outras vidas? São esses os náufragos de Ortega e Gasset: porque passaram pela dor do desamparo, sentem a dor de outros como se fosse sua (empatia), encaram a violência na perspectiva da vítima e a vítima é uma vida, tem uma história e um nome, é carne e ossos, sentimentos, emoções. Se lhes é pedido ou exigido que esqueçam esse pormenor – e a maioria das organizações rege-se por questões que desprezam esta realidade humana -, hesita, questiona-se, reflecte, mas não obedece de forma acrítica, fria, mecânica. A vida, o respeito pela vida, está acima de qualquer outro objectivo na sua escala de valores.

As organizações têm formas de o convencer, e é sempre na base do suposto bem comum, de horizontes mais vastos ou, quando essa argumentação falha, na base da ameaça velada, mas o nosso náufrago não se deixa convencer facilmente: a sua bússula interior resiste à manipulação exterior, por mais elaborados que sejam os argumentos. E se não estiver em condições de não obedecer, adoece: dores de cabeça, úlceras, fobias, ataques de pânico, neuroses, estados depressivos.

Precisamente: muitos daqueles que encaramos como doentes são aqueles que estão mais próximos da sua autenticidade. E muitos daqueles que consideramos saudáveis, porque se adaptam sem questionar às normas e práticas das organizações, são incapazes de sentir a dor do desamparo, incapazes de sentir empatia e compaixão. A sua estrutura, digamos assim, formou-se a evitar essa dor muito precoce, identificando-se, para se defender da vulnerablidade do desamparo, com o vencedor. Como se a vida passasse a ser uma questão de ganhar ou perder, vencer ou falhar. Como se as pessoas não fossem por natureza frágeis e vulneráveis, contraditórias e paradoxais, mas apenas vencedores ou falhados, os “nossos” e “os outros”. É evidente que aqueles que se regem por esta lógica do poder irão sentir-se atraídos pelo poder e vemo-los em organizações, em lugares de gestão ou a gravitar à sua volta.   

Pensem então por momentos nas implicações desta realidade: quem encontramos em lugares de poder, de exercer o poder, de decidir pelas nossas vidas, são muitos daqueles que se regem por normas e práticas alheias às nossas vidas, e, no limite, contra as nossas vidas. Dito assim, é assustador, não é? Agora tentemos transpor tudo isto para o que se está a passar no ocidente, sobretudo EUA e Europa. O que é que estes gestores do poder político e económico andaram a fazer? E o que é que insistem em continuar a fazer? A jogar com as nossas vidas, as vidas de pessoas reais, carne e ossos, sentimentos e emoções. Percursos e expectativas reais. Se as respeitassem diziam-lhes a verdade. Se as respeitassem reconheciam os erros e mudavam de rumo. 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:01








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